A ficha técnica de Lorenzo Vinas Gigli no arquivo da Comissão Nacional de Anistia do Brasil.

– A UIL É ‘PARTE CIVIL’ JUNTAMENTE COM O GOVERNO E OS SINDICATOS ITALIANOS – Desde 2013 corre na Itália um processo que pode ser definido, para todos os efeitos, histórico: pela primeira vez um tribunal internacional é chamado a julgar os crimes cometidos entre os anos 60 e 80 do século passado pelas ditaduras de diversos países sulamericanos: Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Perú.

Foram milhares as vítimas daqueles anos entre aqueles que se opuseram aos regimes militares; entre eles, muitos tinham a cidadania italiana, filhos e netos daquela grande epopeia que foi a emigração italiana em direção à América do Sul.

A presença entre as vítimas, mas também entre os autores de tais crimes, de pessoas com cidadania italiana permitiu à justiça italiana, após longos anos de investigações iniciadas após o processo realizado na Espanha contra o general Pinochet, a abertura de um processo sobre o assim chamado ‘Plan Condor’: com esse nome se designava um plano estratégico de coordenação das ações repressivas contra os opositores, conduzido pelas ditaduras sul americanas daqueles tempos. Tais crimes, segundo a justiça italiana, não podem prescrever porque são considerados “atos de lesa humanidade” e, portanto, imprescritíveis.

No desenrolar do processo constituíram-se como parte civil o Governo italiano e as principais organizações sindicais, entre elas a UIL. Também por isso a União Italiana no Mundo segue atenta o andamento na Itália do processo e acredita que seja importante fazer justiça e restabelecer a verdade sobre fatos que, embora sua dramaticidade, fazem parte da história da imigração italiana no mundo.

Nas próximas semanas deverá ser proferida a sentença sobre um militar brasileiro, Atila Rohrsetzer, em 1980 à frente da Divisão Central de Inteligência do Rio Grande do Sul, acusado do crime de sequestro, desaparecimento e homicídio do cidadão Ítalo-argentino Lorenzo Vinas Gigli.

Gigli sabia que estava na mira dos militares argentinos e, tornando-se pai de uma menina, decidiu voltar para os parentes na Itália, passando pelo Brasil, onde teria se encontrado com a mulher antes de embarcar para Roma.

Os militares brasileiros o sequestraram na fronteira perto da cidade de Uruguaiana e, desde então, não se teve mais notícias dele.

A esposa de Gigli, Claudia Olga Romana Allegri, espera confiante a sentença que, além de fazer justiça, estabelecerá um precedente histórico porque poderia ser a primeira condenação de um militar brasileiro por crimes cometidos durante a ditadura.